Amamentar, mesmo na doença

“Sim, sim, é preciso arrancar, mas tem que deixar de dar de mamar.”

“Agora vai fazer este tratamento mas para isso tem que deixar de dar mama”

E tantas outras frases do género, proferidas por médicos ou outros profissionais de saúde mas sem fundamento nenhum. Por falta de conhecimento, por falta de interesse, mas também por falta de serem questionados.

Sim, a mulher que amamenta e quer amamentar não tem obrigação de saber mas  tem a obrigação de questionar! E o profissional de saúde apesar de se esperar que saiba, pode não saber mas espera-se sim que se informe e dê uma informação correcta à sua paciente. Pelo respeito à mãe mas acima de tudo a pensar no bebé.

Sobre isto haverá centenas, milhares de historias por aí, esta é uma das muitas, esta é minha, contada na primeira pessoa e que mostra que sim é possível amamentar na doença mas precisamos estar informadas.

Espero que inspire quem estiver neste momento a passar pela ansiedade de ter que escolher entre ser tratada ou amamentar.

(claro está que sabemos que há alguns tratamentos e intervenções que não são efectivamente compatíveis com a amamentação, mas se estiverem informadas e questionarem terão alternativas ou então apoio para que possam tratar-se e retomar a amamentação)

Outubro de 2009 :
 
“Já com 3 filhotes e todos amamentados, passei agora por uma nova experiência
 
Tive uma apendicite e como o João mama em exclusivo TEVE que ficar comigo!! Não foi fácil mas consegui!! Desde que entrei na urgência fiz questão de dizer que estáva a amamentar em exclusivo e que por isso só podia tomar medicação compatível e tinham que arranjar maneira de eu poder dar mama, ou tirar leite com bomba para lhe dar! 

Na 2ª feira após o almoço fiquei com uma moinha na barriga, que eu pensava ser enfartamento. 
A moinha passou a dor, e eu tomei um medicamento para o enfartamento (compativel com a amamentação) que me foi dito na saude 24. A dor ainda piorou e fomos para o hospital por volta da meia noite. Dei com um médico que não apoiava a amamentação e logo aí entrei em desacordo com ele. Quis pôr-me soro para as dores e disse que eu não podia amamentar depois e por isso antes de colocar o medicamento fui ao carro dar mama. Já de lagrimas nos olhos liguei á Sandra, minha amiga, enfermeira e conselheira de amamentação e disse o que se passava. 
Ela ligou para o hospital (era 1 h da manhã!!) para o piso da maternidade e explicou a minha situação. Passados uns minutos uma das enfermeiras da urgencia lá me veio dizer que eu podia usar a bomba deles para tirar leite e dar.
Depois verifiquei que o soro afinal era só paracetamol e não fazia mal ao João! Lá fiquei mais animada!
 
Diagnostico dessa noite COLICA URETERAL e mandou-me para casa com antibiotico e medicamento para as dores nenhum deles compativel com a amamentação!! Nem sequer aviei a receita!! Eram 3h30 da manhã e fui para casa com as mesmas dores!! 

De manhã fui á minha médica de familia, onde está tb a minha amiga Sandra e as 2 concordaram com a minha decisão de não omar os medicamentos. A médica fez-me apalpação e disse logo que eu tinha que voltar ao hospital porque o diagnostico estava errado de certeza!!
Suspeitava de apendicite.
Assim que entrei lá, eram 14h30 mais uma vez disse logo na triagem que estava a amamentar e que TINHAM que me dar condições para isso!! E consegui. 
Fui vista por um cirurgião que disse que não tinha duvidas e que era apendicite! Pediu análises e eu falei no João que precisava mamar. Telefonou para a obstetricia, o meu marido foi para lá com o João e eu nos intervalos que tinha, lá ia por dentro do hospital, com o soro atrás a andar até ao 2º piso para dar mama e tirar leite para lhe deixar para ele ter o que beber enquanto eu era operada!! 

Fui operada ás 23h50, o João só teve que beber 60ml de LA para completar uma mamada que eu tinha deixado. Fui internada na Obstetricia (no mesmo quarto em que estive quando o João nasceu).
Subi ao quarto ás 2h da manhã, estáva lá o meu marido e o João. As enfermeiras deixaram o meu marido ficar lá até ás 7h porque o quarto não tinha mais ninguém. 
Estivemos internados 2 noites, na 2ª noite o meu marido já não esteve lá, mas sempre que eu precisava de ajuda as enfermeiras ou auxiliares vinham e pegavam no João e punham-no á mama.

Senti-me apoiada por todo o pessoal do hospital (tirando o 1º médico) na minha decisão de amamentar o João mesmo estando assim doente. Ainda fui de vez em quando olhada assim com estranheza, do tipo, ah é aquela que tá a dar mama!!
 
Não foi fácil, sem comer só com soro, cheia de fome e a produzir leite e dar de mamar… já podem imaginar!! Mas eu aguentei-me pelo João e com orgulho do que estáva a fazer.

Agora estou em casa, sem poder pegar nos meus meninos ao colo mas pelo menos estou com eles!! 
 
Fica aqui o testemunho para provar que é possível! E sinto que abri mais uma porta naquele hospital. O CHBA tem a certificação de Hospital amigo dos bebés mas as urgências… sabemos que é diferente, mas pode ser que se houver mais mamãs como eu, que as coisas mudem.”

Artigo escrito originalmente no blog Mãe de Todos por Ana Custódio

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