A história da Ana Custódio

Andava a fazer as ultimas compras para o enxoval do bebé e em frente a um expositor de puericultura lembro-me de ligar a uma amiga a perguntar se era preciso comprar biberões e de que tipo porque não percebia nada disso.

Comprei um biberão, estávamos em 2004, há 13 anos atrás e eu estava grávida do meu primeiro filho.

Nas aulas de preparação para o parto falaram-me em boa pega, bebé barriga com barriga com a mãe e livre demanda, e acho que era toda a informação que tinha no momento em que nasceu o Tiago.

O Tiago não pôde mamar logo, não que ele não quisesse, mas como eu não sabia mais nada sobre amamentação, ele foi-me mostrado e depois lavado, vestido e embrulhado num grande cobertor azul do hospital e metido debaixo de uma luz para que aquecesse, depois disto demorou 24h de tentativas até sentir efetivamente o poder da sua sucção, felizmente não lhe deram suplemento,  mas fiquei logo com os mamilos gretados.

Os bicos de silicone foram-me emprestados no hospital para usar enquanto lá estive, e claro no caminho para casa e como as farmácias ainda ficam longe, passei logo numa para comprar uns para mim, porque podiam ser precisos. Nunca os usei, valeu-me o meu instinto e a capacidade do Tiago em mamar sem me magoar, porque sobre eles nada sabia.

E assim começou a primeira de 6 histórias de amamentação.

As noites foram muito fáceis desde o inicio, e lembro-me de andar toda contente por ter um bebé que dormia desde a meia noite às 6 da manhã, logo desde o 1º mês.

Perto dos 3 meses tive um episódio de ingurgitamento mamário, tão violento que só com a ajuda do pai (sim o pai é que teve que mamar) consegui resolver, mais uma vez foi o meu instinto que me ajudou e o apoio incondicional do meu marido.

O Tiago mamou em exclusivo até aos 4 meses, depois começou com a alimentação complementar substituindo logo mamadas por comida, e entre os 7 e os 8 meses fez um desmame, que eu hoje sei que era um falso desmame mas que na altura aceitei como sendo o fim, e foi. Ainda chorei mas prontamente lhe dei um copo de leite de vaca e ele bebeu, e pronto.

Ah é verdade, o biberão que comprei naquele dia, nunca o usei, serviu apenas uma vez para a avó lhe dar papa liquida.

Com a Teresa, 3 anos depois, já tinha a experiencia de um primeiro filho amamentado e naturalmente encarei a amamentação como o inevitável a seguir a um nascimento. A Teresa também não mamou na sala de parto, mas esteve mais comigo logo no recobro e tivemos mais tempo de namoro.

Sempre mamou bem, não me lembro de gretas, engordou sempre o esperado e nesta altura já se falava em amamentação exclusiva até aos 6 meses, por isso foi o que fiz.

Aos 5 meses de amamentação tive uma mastite, fui muito bem acompanhada por uma enfermeira, que mesmo ao fim de semana me telefonou para saber como estava.

Agora já sabia um bocadinho mais de amamentação. A importância da boa pega, bebé barriga com barriga com a mãe, livre demanda e aleitamento exclusivo até aos 6 meses.

A Teresa desmamou perto dos 16 meses, já quando eu estava grávida do João. Aceitei como sendo natural e normal, até porque já tinha ouvido que os bebés não gostavam do sabor do leite quando a mãe estava grávida de outro bebé.

Em 2009, fiz força quando quis, pari à média luz e o João veio para cima de mim com os seus 4250g, todo redondinho e pronto para mamar. Ainda cheirou e tentou, mas “tinha” que ser pesado e vestido e por isso lá se atrasou mais um bocadinho.

Agarrou-se à mama assim que pôde e apesar de me fazer doer na primeira semana, foi tudo correndo bem.

Na primeira semana em casa fui visitada por uma enfermeira com formação em aleitamento materno, vinha de questionário em punho, entrou, perguntou, fez cruzes e abalou! Nem tive tempo para lhe oferecer um café!! O carro com o motorista ficou à porta a trabalhar … Percebi que isto não é apoio na amamentação.

Com o João tirei muitas fotos a amamentar e até entrei num calendário de amamentação, fomos a dupla de Fevereiro de 2010, e comecei a perceber que havia pessoas que sabiam mais de amamentação, até tinham um nome, eram Conselheiras de aleitamento materno. Descobri que a tal enfermeira que conheci quando tive a mastite com a Teresa era uma delas, e por esta altura tornamo-nos amigas.

Aos 3 meses do João tive uma apendicite e mesmo estando a amamentar em exclusivo, fui operada, o João ficou sempre comigo e mamou sempre, valeu-me a minha persistência, o grande apoio do marido e mais uma vez a ajuda da tal amiga/enfermeira/CAM. Esse relato podem ler aqui.

Agora já sabia ainda mais coisas. A importância da boa pega, bebé barriga com barriga com a mãe, livre demanda, aleitamento exclusivo até aos 6 meses e saber que haviam CAMs.

Quando olhei para aquele teste, não queria acreditar! O João tinha apenas 7 meses, tinha acabado de iniciar a alimentação complementar, e eu estava grávida novamente! Que susto, que medo, que culpa.

Quando a Julieta nasceu, de parto induzido às 41 semanas, veio para cima de mim, mamou e ali ficou, mais um bocadinho.

Não era tão grande como o João, mas era uma boa bebé, 3500g por isso esperava-se uma boa evolução de peso.

Com 4 filhos e a amamentar a mais pequenina, a vida era uma correria, e quando me apercebi aos 2 meses e pouco da Julieta, que ela não estava a engordar, chorei! Entrei pelo consultório da minha amiga enfermeira a chorar, sentei-me, baixei os braços e disse “Sandra, preciso de ajuda!”. E ela ajudou!

Ouviu-me, perguntou, sugeriu, acompanhou e não deixou que este episódio me empurrasse para a introdução de suplemento ou até mesmo para um desmame. Também nunca desvalorizou a minha preocupação e muito menos assumiu que ao 4º filho eu já devia saber tudo.

A estratégia seguida foi dar mais mama, mais mamadas, mais tempo para a bebé e aqui mais uma vez o apoio do marido foi essencial, ocupou-se mais dos outros 3 para eu poder dar mais atenção à pequena Julieta.

A Julieta lentamente começou a ganhar peso, sempre no seu ritmo que quando comparado com o do João 16 meses mais velho apenas, era realmente lento, mas era o seu ritmo. Estava saudável e crescia em comprimento, já sorria, interagia connosco e estava feliz.

Aos 4 meses introduzi a alimentação complementar por pressão do enfermeiro que nos seguia, que como não tinha formação em aleitamento materno me empurrou para o caminho que conhecia.

A Julieta continuou a mamar até aos 22 meses, quando eu decidi que para mim chegava. Fiz um desmame um pouco abrupto, foi com amor, pensado, sem culpa, consciente. A Julieta ainda hoje é muito saudável e elegante e segue o seu ritmo de crescimento.

Agora  sabia ainda mais coisas. A importância da boa pega, bebé barriga com barriga com a mãe, livre demanda, aleitamento exclusivo até aos 6 meses, saber que haviam CAMs, mas acima de tudo que cada bebé é um bebé, são todos diferentes.

Aqui começou a viragem! De mãe passei também a profissional. Foi o meu marido que me sugeriu fazer formação nesta área, disse-me que podia transformar a minha experiência de mãe em apoio a outras mães, e assim fiz.

Tornei-me doula em 2012 e em 2013 fiz o curso de conselheira em aleitamento materno e quando no fim de 2013 percebi que estava grávida do Zé assumi como sendo um presente.

Planeamos um parto em casa, na água e com os outros filhos a assistir, não foi todo assim, mas foi muito bom! Podem ler o relato aqui.

Quando o Zé nasceu gritei para mo colocarem em cima de mim, foram segundos até ele fazer a primeira respiração e mostrar que estava bem, mas eu gritei por ele esse tempo todo! Em cima de mim, poucos minutos depois de nascer, pôde cheirar, tocar, lamber e mamar. Assim estivemos durante as 3 horas seguintes, até passar para o colo do pai, pele com pele, até voltar para mim novamente.

O Zé era o 5º filho, depois de 4 filhos amamentados, depois de ter formação em aleitamento materno, depois de eu saber muitas coisas sobre amamentação e foi quem me veio mostrar que é SEMPRE A PRIMEIRA VEZ!

Logo no inicio fiquei com os mamilos todos gretados, dores horríveis, ele chorava quando queria mamar e eu chorava com ele nos braços a ganhar coragem para lhe dar mama. Acordei muitas noites em lágrimas, a pensar desistir.

Mamilos gretados, síndrome de Raynaud, fungo e ingurgitamento foram apenas alguns dos problemas por que passei.

Levei-o à osteopata que ajudou na questão da pega. Pedi a colegas CAM’s que vissem a boca do Zé e o freio. Telefonei à amiga Sandra para ser ouvida. Usei e abusei do apoio da minha querida doula. Fui ao cantinho da amamentação do hospital ter com a enfermeira chefe e minha formadora.

Cortei blusas para andar com as mamas de fora em casa, tomei paracetamol para não sentir dores, sonhei em dar de mamar sem chorar, tomei antifúngico oral, fiz calor, usei conchas para proteger os mamilos e até sai de casa um dia sozinha (quando o Zé tinha 1 mês) para ir comprar uma chupeta, porque precisava de ter alguma coisa que me desse uns minutos de descanso, físico e emocional, sem bebé na mama. Precisava curar-me.

O Zé tinha 3 meses quando finalmente deixei de sentir dores a amamentar. 

Nesta descrição toda devem faltar muitos pormenores que de certeza foram importantes e marcaram a diferença, mas se não os recordo é porque a minha mente os guardou, provavelmente onde eu posso aceder se precisar, mas só em casos especiais.

O que foi mesmo decisivo? O apoio incondicional do marido, que esteve sempre ao meu lado e que acreditou sempre que eu ia conseguir. Que deu colo ao Zé quando eu mal o conseguia segurar nos braços, que o acalmou com chupeta para eu descansar, que me falou sempre na positiva.

Para o Zé também não deve ter sido fácil, mas engordou sempre muito bem e mamou sem problemas até eu engravidar novamente, quando ele tinha 15 meses, e continuou, a mamar sem problemas nenhuns até ao nascimento da mana Rosita … e continuou a mamar, em tandem com a mana.

Desmamou aos 36 meses por comum acordo. Ele disse-me um dia que quando fizesse 3 anos deixava as maminhas para a mana, e eu fiz questão de não esquecer essa conversa e como já estava também cansada de ter os dois à mama, aproveitei e na festa dos 3 anos mamou pela ultima vez.

Não foi fácil para ele perceber que era mesmo a sério, afinal na sua cabecita a ideia de deixar a maminha tinha sido apenas da boca para fora, para mim também não foi fácil, mas não quis voltar atrás. Estive doente no primeiro dia que ele não mamou, tive quase uma mastite, foi a maneira que o meu corpo encontrou para me dizer que eu precisava deixar ir. E assim foi, acolhi sem culpas a decisão que tinha tomado e tudo normalizou.

Depois de um inicio tão doloroso tinham chegado ao fim 36 meses de muita maminha. Foram muitas conversas, muitos olhares, muitos mimos. Valeram cada dor que senti no inicio, cada lágrima que chorei.

Durante toda a gravidez da Rosa amamentei o Zé, foi uma sensação nova, já que das outras vezes os bebés tinham desmamado no inicio das gravidezes. Nunca tive dores, contrações ou incómodos físicos, tive algum cansaço emocional e falta de descanso nas noites mal dormidas, mas quando a Rosita nasceu, a 8 dias do Zé fazer 2 anos, mamaram juntos pela primeira vez ao fim de 4 horas do parto, e foi tão lindo de ver.

Assim continuaram, quase sempre os dois ao mesmo tempo.

A Rosita nasceu pesada, a maior de todos, 4330g, mas tal como a mana Julieta, decidiu que queria ser mais elegante que os manos e abrandou, bastante, a sua subida de peso. Nunca perdeu peso, mas também nunca engordou o esperado, nem lá perto, mas está saudável. Aqui o pai também foi muito importante para me relembrar que todos são diferentes e que seguem ritmos próprios. Mais uma vez confiou na minha capacidade de alimentar os nossos bebés.

Introduzimos a alimentação complementar aos 6 meses e foi nessa altura que o Zé deixou de mamar à noite. Até aqui era um de um lado e outro do outro, toda a noite, durante semanas e semanas e eu estava cansada de não dormir mais que 1 hora seguida. Cheguei a acordo com o Zé e ele passou a mamar só de dia.

A Rosita continuou e continua com muita maminha, de dia e de noite sempre que quer. Tem agora 13 meses e adora mamar, não sei até quando vai ser, mas será enquanto for bom para as duas.

O que sei hoje sobre amamentação? Cursos à parte, é que apesar de ser o 2º, 3º ou 6º filho a verdade é que é a primeira vez que somos mães daquele bebé e que o amamentamos, temos que nos permitir a sentir assim.

É SEMPRE A PRIMEIRA VEZ!

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